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PRA VER A BANDA PASSAR

                                                 É a chuva, bicho da terra

 

                                                                                                                                 Adalberto dos Santos

 

Tem horas que preciso escrever desembestado, e isso me dá medo. Temo correr o risco de não estar dizendo nada. Mas, em horas menos tensas, não me comporto dessa forma.

Na verdade sou um sujeito preocupado, cuido com o que escrevo. Às vezes, acabado um texto, leio repetidas vezes, procuro um detalhe, um equívoco, algo que talvez comprometa o sentido do que vai escrito; noutras tenho pressa de escrever; e noutras (nessas mais ainda), urgência de publicar.

Se publicar o que escrevi ligeiro, é chato: tenho mania de me questionar se o que já foi lido estava certo, se o que saiu estava como havia planejado. Uma vírgula fora do lugar chega a me dar medo, nunca mais quero escrever. Uma ou outra intenção pode ter sido comprometida. Não sei... mas se publico, desculpem-me, é por uma necessidade incontrolável de expressão.

Engraçado é quando não tenho certeza sobre o que quero escrever e fico procurando me explicar por que não escrevo.

Pronto, agorinha mesmo me aconteceu algo. A chuva está quase chegando. Vem daqui a pouco, e com ela uma carruagem de ventanias, trovões e relâmpagos. Isso me incomoda, não sei se terei tempo de escrever, não sei se poderei ir além desta frase, não sei se acabado o texto estarei satisfeito, se as pessoas me entenderão, se gostarão do que leram. Ultimamente deu de chover à hora em que me preparo para ligar o computador; se quero puxar alguma coisa da cabeça, se o espírito está voltado a esse frágil trabalho, eis que chega no vento o aroma intimidador da chuva.

Não reclamo, não tenho nada contra a chuva, não quero que ela se afaste; ao contrário, fico é feliz quando aparece, é como uma visita que a gente quer sempre rever, gosto de sua presença e até me orgulho de poder compartilhar das coisas boas que ela traz consigo.

Costumo dizer que a chuva canta em latim ao barulhar no telhado, mas sua música me dá um amolecimento. Por mais que não entenda direito o código de sua linguagem, sei que quando surge é porque quer cantar. O que estranho é a coincidência de nos últimos tempos ela vir me visitar exatamente entre as seis e as sete da noite.

Por causa da chuva tenho que desligar o computador - não escrevo mais, quer dizer, não consigo escrever. Há alguns dias isso vem acontecendo; aí, não sei o que é, ponho a culpa na chuva; fico travado e tento entender essa coincidência. Cheguei até a pensar: ou é uma combinação dos céus, ou então eu devo ter criado em minha cabeça um dispositivo de alarme para que somente na hora da chuva me dê vontade de voltar à escrita. Penso se andei cometendo um erro grave, se me abandonei ao trato que fiz como divino: já disse, minha solidão cotidiana deve ser alimentada com um pouco de reserva para o exercício contemplativo com as palavras.

Mas por que agora, chuva? Recado de que não tenho mais créditos com os céus?

Não, não é culpa da chuva, acabo de me convencer.

O único culpado é esse pretenso exclusivismo de escritor, sujeito ridículo e egoísta sem isso assim de pudor para com as coisas da Criação. Quer chova quer não, não é certo abrir a boca e desconversar sobre a autonomia da chuva, como se passasse numa repartição pública para reclamar de um serviço mal prestado pela administração.

Supostamente esse mesmo sujeito ridículo, funcionário da ridícula burocracia do Estado, está convicto de que a chuva há de esperar a realização dos seus caprichos para depois chover, e isso porque resolveu exigir uma verificação de rotina nas instâncias superiores do firmamento, e isso porque imagina procurar respostas para a sua pouca habilidade com as palavras. Ingênua, tola criatura de visão míope e desastrada. Tem gente te olhando, sabia?



Escrito por Adalberto dos Santos às 14h32
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Continuação...

          

                       

            - Quem é esse tal?

            - Um nada, um coisa em quem não se pode confiar, não sabe nada e fica metido, um pulha, um zé-qualquer desse tamanho; um acidente da natureza dado a invenções. Só tem um nome e um desenho pouco apagado de existência.

            - E mesmo assim quer saber tudo?

            - Parece.

            - Pobre escritorzinho... Acha que pode enviar um requerimento aos céus, que sua aberração se resolve com uma simples comunicação oficial. Devia ir tomar aquele  suco de cajá. Vai tomar teu suco de cajá, estúpido, a chuva não espera, a chuva não se obriga às tuas angústias. Olha o vento rodopiando as nuvens do céu. Vês, não vês, não importa, a chuva nem liga para o que pensas. Logo, logo ela cai.

            - É isso. Fica trancado dentro desse quarto querendo respostas, enquanto lá fora, embaixo de árvores e à entrada das salas as moças se cobrem dos pés à cabeça, aguardando a chuva. Estão quase nuas de tantos mistérios, vestidos, lençóis, cobertores, mas não desesperam. Com o que se preocupam é o mínimo; mas que importa, nas cozinhas mais humildes um cheiro de chá fervendo à beira do fogo prepara a chegada da chuva.

            - Devia correr, ir à chuva, não era?

            - Ah, sim, mas vês? Os varais, os panos de chão, os pobres panos de chão esquecidos de propósito por sua alma confusa e distraída...

            - Fica com pena deles...

           - Fica comovido por ver que terão de agüentar a noite toda e que no dia seguinte amanhecerão molhados...

            - Mas eles não são como os gatos da vizinhança que farejarem a chuva e procuram abrigo; não como os bichos que sentem preguiça pela manhã depois que a chuva inunda as vidas de água...

           - Nem fumam quando estão tensos...

          - Não dormem tarde, não acordam cedo para ir ao trabalho, não têm compromissos, não pensam que um dia a chuva pode chegar de repente e quando menos se espera...

          - Não são como eu...

          - Como tu, filho de Deus, não questionam os milagres divinos e não se convencem de que estão certos de alguma coisa. Deixe-os lá, é tu quem precisa de chuva, não eles; corre, vai logo, na volta terás uma toalha seca e uma mãe amiga pra te abençoar. Mas se não queres, se não te moves dessa cadeira, cria o mínimo de bom senso, desliga esse computador, deves estar bêbado; essa ilusão de que a chuva atrapalha tua vida é um erro imperdoável. Se não consegues escrever, melhor não inventar desculpas. Consola-te de tua infeliz condição. Caso não saibas, ainda és nada, e isso aí, homem pequeno, é um prodígio maior que tudo, isso é a chuva, bicho da terra.



Escrito por Adalberto dos Santos às 14h31
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