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Letra Marginália
 


PRA VER A BANDA PASSAR

     

       Carnaval tem fim, sim, graças a Deus!

      Uma maneira de dizer o bem-estar.
      Denominar o prazer coletivo, o êxtase do simples caminhar contra o vento de  qualquer um.
     (Gilberto Gil)

      Agora que passou o carnaval, volto a tudo o que havia abandonado. Retomei os livros da estante, abri os arquivos de ficção no computador, bolinei as frases dos textos que venho escrevendo, reli outros já escritos, já lidos, já dados aos outros, comecei a escrever novos, e, por fim, estou aqui, como antigamente, como antes do carnaval. Até lembrei que tinha uma namorada (acredita, Adriana!?), liguei o celular, lembrei dos amigos, respondi e-mails, fiz os contatos que devia, olhei o céu lá fora.
       Reparem: quando a quarta-feira chegou, não deixei me atrapalhar, daí não esqueci de fazer nada, nada do que fazia antes. Ou seja, as coisas tidas como compromisso fiz questão de ter bem aqui, na ponta do nariz, pra não esquecer tão cedo delas. Dizem que gente distraída não enxerga um palmo além do focinho, né? Então, depois de quarta perdoei minha distração. Na verdade, não sou só eu, mas todos somos pura distração quando o carnaval chega.
       Um amigo que não via há dois anos, esteve em minha cidade, mas era carnaval, e o cara, ah, nem pôde me ver. Bem que queria, claro, ainda mais porque o danado sempre que vem me traz velhas lembranças de sua linda Bahia. Mas quarta, depois de chegar em casa, ele me liga, a voz como a de um menino que fez um malfeito: "Adalberto, desculpa aí, hein! Mas nem deu pra te visitar, meu rei." Quer dizer, não me visitou porque estava nas avenidas da vida, eu disse. E ele como desculpa falou não ter tido tempo -  assim como podia ter dito que o carro havia ficado atolado na estrada Bahia-Minas, quando estava vindo exatamente em direção à Paraíba -; eu entendi, sorrindo, embora estivesse louquinho pra olhar bem fundo na mentira dele. Sabia que a folia não poupa ninguém, e que nenhum malandro foge à alegria dos festejos carnavalescos. Toma-se isso, toma-se aquilo, mas toma-se principalmente alegria, e de repente viramos reis e rainhas do mundo. Qualquer um fica assim.
       Já outro que me via todos os dias, desapareceu; só que não era distante não. Estava na praça também, mas aqui na cidade. Esse, mais que o outro, pegou um esquecimento do amigo aqui, que esquisitei dele; mais perdido que o jovem baiano, ficou tão atrapalhado que deu sinal de vida apenas na terça-feira. Era o Mauro, um dos camaradas mais queridos dessas plagas. Depois veio me dizer que estava vendo a banda passar.
       Foi então que compreendi a coisa: o besta ali era eu. Meus amigos todos fazendo a história acontecer por aí, sábios e loucos girando a roda da vida, e eu querendo saber de seus destinos. Ora, deixei de ser besta, rapaz, fui me contagiar também. Pela primeira vez depois de quatro ou cinco anos sem cair na folia, pus minha roupa mais colorida, e caí na avenida. Eram quase onze horas da noite de terça quando olhei da janela a banda que quase passava. De jeito nenhum podia perder essa aí. Nessa hora, já sabia, faço as coisas com a mais plena consciência: deixo tudo pra trás, vou me distrair do mundo. Saí correndo atrás da banda, e do trio...
       O  mundo ficou travestido apenas de meus sonhos. Estive na praça como quem está em alto mar. A avenida era uma enorme jangada por onde eu navegava as minhas mais loucas fantasias. E olha que a maré a essa época nem sempre está pra peixe. Mas mesmo assim a vida parece não ligar pros perigos. E tudo vira música, som, movimento, palavra, poesia. Um livro inteiro de alegria, na verdade. Os parcos capítulos apenas riscados, com esforço, ao longo do ano, viram arte; é a síntese entre o céu e o chão. Finalmente, diz o moço, o velho, a mocinha, dizem todos: parece que agora a vida começou; demorou, mas agora vai! Até quarta-feira de cinzas ninguém lembra que há hora marcada pra nada. E vivem todos na mais doce ilusão, como defendem os tolos, justificando: se a vida à toa  cede lugar pra que a banda passe, por instantes apenas, então não vale a pena.

       Tolice aos bocados, besteira, discordo completamente. Melhor realidade não há. Essa é que é a boa do carnaval, essa instantaneidade, esse estado maravilhoso, essa capacidade de suspender tempo e espaço como se o homem fosse o deus do instante (e é, de certa forma), depois não fosse mais. Durante quatro dias, quem pode mais que ele? É o mínimo a que pode ter direito, tão cheia de tristeza é sua vida. Afinal, sem a festa em meio a nós haveria aquela dialética entre a felicidade e a tristeza de que a música do Vinícius nos diz tão bem? Para isso existe o carnaval, para acabar, e pra que fiquemos certos de que as coisas de felicidades também têm um fim. Se não acabasse nunca, que graça teria? Carnaval tem fim, sim, graças a Deus! Não vejo graça nas coisas que não têm fim. A vida seria muito chata, já pensaram...
       Mas carnaval acabou, pronto, agora é o mundo de novo, com sua alegria e tristeza. Todas as coisas podem vir agora, inclusive as desilusões que porventura ele tenha provocado. E o melhor é que virão, feito vento noturno, inevitavelmente todas virão, a seu modo, canhestras. Resta ter consciência disso e não deixar que nos peguem de surpresa. Que foi agora? Que fazer?
       Eu fiz assim: acordei na quarta-feira depois de tudo, aí busquei os cds que eu tenho dos mais alegres e ouvi as melhores vozes dizendo coisas belíssimas. Pus pra fora aquela melancolia, aquele estranhamento pós-carnaval, aquele cansaço, aquela emoção meio dor, meio culpa. Sarei-me dos mais duros sentimentos, desses que só trazem desvantagem, daqueles que pegam você por baixo, levantam assim, sacodem de novo, socam sua cara de um lado e de outro, depois lhe perguntam se ainda quer mais. Como pancada forte em nocaute, eles te deixam lá, caído no chão. Vem tudo de bom pro teu lado, coisas mais lindas se oferecem, mas você parece não ter mais nada. Ficou morto, acabado; e é como rodamoinho - rodamoinho, não, furacão mesmo, desses que matam dez mil, gente forte como eu e você.
       Mas nada como a poesia pra recompor as partes perdidas no carnaval. Já sei como é, então, dou um sorriso pra dentro e digo a mim mesmo: o negócio é ir à janela e esperar que a banda volte a passar. De toda forma a gente passa o ano inteiro sufocado mesmo, o calor da fábrica parece matar cada dia, parece que a vida não vai além de hoje, sempre assim - como se morrêssemos a cada minuto. Pra que não seja dessa forma, o melhor é começar quanto antes o realce, é dar início à pintura do próximo ano.
       Só não pode, de jeito nenhum, se enganar: um homem não deve negar a sua alegria por nada. Assim não é possível, assim não, ou então, tchau poesia. Resta a mentira, dizendo, de um modo seco, um simplesmente, e não um  CARNAVAL, SIMPLESMENTE, ou, mais ainda, um sincero Nunca negue a  sua alegria por nada.

       Alegria pra todos, o ano inteiro! 'Té a próxima...

        Adalberto dos Santos.



Escrito por Adalberto dos Santos às 13h04
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Marcha De Quarta-Feira De Cinzas

Composição: Vinicius de Moraes / Carlos Lyra


Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
 

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
 

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
 

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe
 

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz



Escrito por Adalberto dos Santos às 17h50
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Sonho de um Carnaval - Chico Buarque

Carnaval, desengano
Deixei a dor em casa me esperando
E brinquei e gritei e fui vestido de rei
Quarta feira sempre desce o pano

Carnaval, desengano
Essa morena me deixou sonhando
Mão na mão, pé no chão
E hoje nem lembra não
Quarta feira sempre desce o pano

Era uma canção, um só cordão
E uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão pela cidade

No carnaval, esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança



Escrito por Adalberto dos Santos às 18h56
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